sábado, 15 de outubro de 2016

Professor é profissão e Educador é missão

O título desse artigo é um trecho de uma fala atribuída ao professor Salomão Becker, durante o primeiro ato de comemoração alusiva ao Dia do Professor no Brasil, num colégio paulistano, em 1947, e diz  muito sobre essa atividade.

Ao mesmo tempo que desenvolvemos uma profissão, uma das mais dignas, também nos envolvemos numa missão de educar crianças, jovens e adultos, além das competências cognitivas, pois é praticamente impossível um professor não se envolver emocionalmente com os estudantes no processo de ensino e aprendizagem, e, portanto, assumimos a missão de educador em sua dimensão mais holística.

Apoiar a carreira docente é um dos grandes desafios na atualidade. É importante encontrar formas de incentivá-los a se desenvolverem nessa profissão, possibilitando formação inicial e contínua adequada, além de garantias de financiamento para elevar suas remunerações.

Do trabalho dos professores, considerando o contexto de complexidade da sociedade moderna, pós-industrial, criou-se elevada expectativa do trabalho docente, pois está posta a necessidade de educar nossas crianças e jovens de modo que a formação escolar esteja articulada com os novos tempos. E, nesse sentido, professor motivado é essencial.

Ao lado de alunos entusiasmados com os estudos estão professores com olhos brilhando, com grande satisfação por terem contribuído com o desempenho escolar. A boa aula é responsável em grande medida pelo empenho dos estudantes. Todos temos em nossas lembranças o professor ou a professora que influenciou decisivamente nossas escolhas acadêmicas ou profissionais.

No Ceará, nossos professores merecem o reconhecimento da sociedade por grandes conquistas realizadas na educação pública. Vejamos:

a) Nossos índices de alfabetização chegaram aos patamares dos Estados mais desenvolvidos da federação, elevando significativamente o Ideb;

b) No Enem, a partir de um trabalho desenvolvido pelos professores nas escolas, 98% dos alunos se inscreveram em 2016 para fazer as provas, manifestando a confiança que os estudantes têm num futuro mais próspero e no trabalho levado a sério pelos docentes na formação dos jovens;

c) Na iniciação científica, temos cada vez mais alunos envolvidos em projetos científicos, orientados por professores, e que concorrem em feiras nacionais e internacionais;

d) O percentual de alunos que abandonaram as escolas públicas estaduais no ensino médio foi drasticamente reduzido de 2007 a 2015, saindo de 16,33% para menos de 7%. Redução de mais da metade deste indicador.

Não há dúvida de que os resultados alcançados pelo Estado nos últimos anos se devem ao trabalho árduo dos docentes cearenses. Dessa forma, a todos os professores das escolas públicas, nossa sincera homenagem.

Publicado no jornal O povo, 15 de outubro de 2016.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2016/10/15/noticiasjornalopiniao,3664193/professor-e-profissao-e-educador-e-missao.shtml

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Protagonismo Docente: a escrita acadêmica e literária fortalecem a prática em sala de aula

Não tenho dúvida. O professor que escreve sobre suas experiências e publica artigos científicos, ou que tem uma veia artística e escreve belas histórias ficcionais, poemas, contos e afins, amplia seu repertório didático, consolida novas aprendizagens e se torna um profissional mais vigoroso, orgulhoso de sua produção e do seu trabalho docente.

Paulo Freire afirmava: "Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino". O trabalho de professor não pode se distanciar do processo de busca por novos saberes, novas descobertas. Dar uma aula tendo como referência um trabalho autoral é diferente, dá segurança e promove a educação dos alunos pelo exemplo.

Por essa razão, é muito importante apoiar o trabalho de pesquisa e escrita criativa dos professores como parte integrante de qualquer política de formação contínua. Trata-se de uma dimensão denominada por estudiosos da área de "autoformação".

Nesse mês de outubro de 2016, a Secretaria da Educação do estado do Ceará lançou duas iniciativas nessa direção que apoiarão e incentivarão professores a se engajarem ao universo das pesquisas científicas e na criação de obras literárias: Revista DoCEntes e Edital para seleção de produções acadêmicas ou literárias para publicação de livros.

A Revista DoCEntes terá circulação quadrimestral e será um periódico para publicação de artigos escritos por professores. Será uma grande oportunidade para os docentes que desenvolveram dissertações ou teses publicarem suas reflexões, mas acima de tudo, será um estímulo aos professores que não têm o hábito de produzir trabalhos científicos a iniciar um processo de sistematização de seus saberes práticos e compartilhar na revista seus achados e suas conclusões.

Noutra frente, foi lançado o primeiro edital que selecionará produções acadêmicas e literárias de professores para publicação de livros. Será um reconhecimento da qualidade da produção científica e artística dos educadores cearenses. Teremos a partir de agora, muitos livros nas estantes das bibliotecas escolares de autoria de nossos mestres.

Apoiar o protagonismo docente fortalecerá a adesão dos professores à proposta educacional desenvolvida nas escolas, proporcionando a qualificação do processo ensino e aprendizagem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O ensino médio e as medidas provisórias

Estamos diante de um desafio: melhorar a qualidade da escola de ensino médio. Este desafio está claro!

Todos sabemos que nesse nível de ensino, há uma cobrança mais intensa da sociedade, pois se trata do último nível da educação básica, e muitos jovens, ao concluir, não desenvolveram o domínio das dimensões cognitivas adequadas ou pior, não conseguem nem mesmo chegar ao final, ficando pelo caminho devido a sucessivas reprovações e desestímulo, na maior parte das vezes, ainda no ensino fundamental. E essa constatação para uma nação que almeja um futuro melhor, é trágica!

O currículo do ensino médio precisa de mudança? Tenho convicção que sim. É importante melhorar o clima escolar, a partir da sistematização de um projeto pedagógico que dialogue bem com as juventudes, seus anseios e projetos de vida, possibilitando diferentes itinerários formativos.

Mas mudanças em uma cultura cristalizada de ensino não se dá por Decreto, ou melhor, por Medida Provisória. Qualquer turbulência em que não se pode prever as consequências coloca em xeque a credibilidade de quem as propõe perante a comunidade escolar. O sentimento de responsabilidade é irrevogável.

As redes de ensino que já se arriscaram a implementar algumas mudanças no currículo do ensino médio, tão somente utilizando todas as oportunidades que a LDB já dispunha, como é o caso da rede estadual do Ceará, com a implantação do Núcleo Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais (NTPPS), componentes curriculares eletivos e o tempo integral, podem testemunhar que mudanças dessa natureza requerem diálogo, formação contínua de professores e consistência pedagógica dos novos caminhos.

Não podemos pôr em risco o futuro de uma geração com aventuras em massa, não testadas amplamente e avaliadas quanto aos seus efeitos.

Estamos prestes a assistir no Brasil, com a recente Reforma do Ensino Médio proposta pelo MEC, de forma aligeirada e sem acúmulo nacional de consensos, um grande mal estar, com a sensação de mudanças sem contexto.

O Ministério conseguiu colocar no mesmo conjunto de normas que almejam mudanças no currículo, com um novo horizonte de tempo para a jornada escolar, flexibilizações bruscas nas rotinas de contratação de professores, que pode dominar a pauta das discussões dos próximos dias e esconder as reflexões possíveis sobre o desenvolvimento de um currículo que responda aos desafios do ensino médio.

Tipo de Erro que os mais apressados sempre cometem!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Qualidade e equidade nas séries iniciais do Ceará

No último 8 de setembro, o MEC divulgou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) calculado a partir da Prova Brasil e Saeb aplicado em 2015. Trata-se de um índice que sintetiza dois indicadores: 1) desempenho acadêmico dos alunos em linguagem e matemática e 2) taxa de aprovação.

Ao analisar o desempenho dos municípios do Ceará nesse índice, nas séries iniciais, pode-se destacar alguns elementos importantes:

a) o Ceará foi o único estado da federação em que todos os municípios alcançaram a meta projetada para 2015;

b) dos 183 municípios que tiveram Ideb calculado, 68 já têm índice superior a 6, representando 37,2%. Em Pernambuco, estado do Nordeste com características parecidas com a do Ceará, 8 municípios conseguiram esse índice, 4,4% do total;

c) no 5º ano, em Língua Portuguesa, a diferença da média de proficiência dos alunos no quintil mais alto do índice socioeconômico em relação ao quintil mais baixo é de apenas 0,3 pontos. Já na Matemática, os alunos mais pobres se saíram melhor, com 7 pontos a mais na média.

Isso quer dizer que a escola pública cearense vem conseguindo desenvolver aprendizagem para todos, na busca constante da equidade. Enquanto nos demais estados da federação a diferença econômica afeta consideravelmente o desempenho acadêmico, onde os alunos com condições socioeconômicas melhores tiram notas mais altas, no Ceará essa diferença é praticamente nula.

Esses resultados têm grande relação com o Programa de Alfabetização de Idade Certa (Paic), que é feito em parceria com os municípios cearenses. Desde 2007, a Seduc apoia os municípios na definição das orientações curriculares, material didático e acompanhamento das redes de ensino.

No fim de 2015 o governo lançou o Programa de Aprendizagem na Idade Certa (Mais Paic), que expande os critérios de distribuição do ICMS e a premiação do Escola Nota 10 para os Anos Finais do Ensino Fundamental. A formação de professores para essa etapa também foi contemplada e já está em prática a partir de 2016. Espera-se que, com a expansão do programa, os resultados impressionantes dos Anos Iniciais cheguem à etapa final do Ensino Fundamental e, posteriormente, ao Ensino Médio.

O Ceará, é possível afirmar diante dos dados, vem conseguindo consolidar uma rede pública de educação, onde todos os municípios vêm respondendo positivamente aos estímulos institucionais propostos pela Secretaria da Educação. Isso porque o Governo do Estado, numa decisão pioneira no Brasil, resolveu apoiar as gestões municipais com investimentos e assistência técnica, quebrando o paradigma de que o Estado é responsável apenas por sua rede de escolas.


Lucas Fernandes Hoogerbrugge
lucas.fernandes@seduc.ce.gov.br
Coordenador de Cooperação com Municípios (Seduc-CE)

Rogers Vasconcelos Mendes
rogers@seduc.ce.gov.br
Coordenador de Gestão Pedagógica (Seduc-CE)

Publicado no Jornal O POVO no dia 12 de setembro de 2016. Clique AQUI

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Lições da sala de aula: Educação Republicana tem como princípio a inclusão e a cooperação

Na educação pública, a competição não é um bom caminho. A meritocracia encontra muitos limites num contexto de intensa manifestação de desigualdade no acesso à oportunidades.

Sei que a sociedade embriagada no espírito do capitalismo, baseada no lucro e no primeiro lugar,  eleva bastaste o grau da competição nas relações sociais e institucionais. Sempre é enfatizado os que "conseguem", os melhores. Para estes, a glória!

Todos os cidadãos e as instituições que ficam depois do primeiro lugar sentem-se motivados(as) para vencer na próxima? A constante exclusão ou rebaixamento nos muitos rankings possíveis é uma boa estratégia para motivação das escolas em larga escala? Dentro da sala de aula, a não atenção aos que não manifestam interesse no momento é mesmo justificável?

Ora, "o sol nasce para todos, logo todos são capazes e têm as mesmas oportunidades!" Dizem os que respondem "sim" a estas perguntas. Há quem responda "em algumas situações" é necessário aplicar a meritocracia, pois a escola não pode ser uma ilha e precisa adequar-se as estruturas da sociedade competitiva que se consolida. E os que respondem "não" baseiam-se nos princípios de uma escola não reprodutivista, emancipadora.

A pedagogia do "ninguém para trás" deve ser a premissa nas escolas públicas. A ausência dessa premissa compromete o desenvolvimento da função social da instituição escola e reforça a lei da selva urbana: "cada um por si, Deus por todos".

Na sala de aula e nas relações de rede entre as escolas, é importante que a cooperação seja a regra. E para ter cooperação tem que ter partilha de experiências e a concretude do interesse em corresponsabilizar-se.

O filme "Escritores da liberdade", de 2007, inspirado em uma história real, caricatura o que quero expressar nesse texto. Nessa obra, as lições aprendidas são:

a) não há educação verdadeiramente inclusiva quando a vida de cada sujeito não for tema das aulas;

b) turmas "especiais" para os que não conseguiram aprender no tempo esperado reforça a exclusão;

C) os sentimentos devem fazer parte da agenda escolar, desprezá-los não é sensato.