segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Educação é a prática da ciência

Rogers Mendes

A escola deve ensinar muitos conteúdos considerados importantes para a sociedade. A proposta pedagógica deve estar alinhada às expectativas pessoais de cada estudante, mas deve também corresponder a demandas sociais relacionadas à convivência na diversidade e ao ingresso no mundo do trabalho. 

Mas tem um saber que deve ser estruturante e inequívoco no processo educativo: construir conhecimentos pela prática da ciência e dos seus métodos de pesquisa. 

Tem-se falado que estamos vivendo na sociedade do conhecimento. Contudo, o que isso quer dizer na prática? 

Em síntese, o conhecimento, na perspectiva contemporânea, não é algo que se aprende somente pelo ensino ministrado pelos mais 
experientes, mas se desenvolve constantemente pelo exercício da investigação, sistematização de métodos e expressão das conclusões e dos achados consequentes.

Portanto, a escola que se propõe a 
educar nos valores desta sociedade, prepara crianças e jovens para fazerem descobertas e ensaiarem soluções para os problemas identificados, em vez de proporcionar a simples memorização e acumulação de informações.

A sociedade do conhecimento é caracterizada pela participação efetiva de cada cidadão na produção de saberes e reflexões ativas. Educação, considerando esta dimensão, promove o aprender a aprender com vistas a termos capacidade de continuar a descobrir, conceber e desenvolver-se de forma contínua por toda a vida.

Ao pensar nestas premissas, a Secretaria da Educação promove o Ceará Científico, ocasião em que alunos da rede pública apresentam pesquisas científicas, destacando 
a construção e delimitação do problema e a descrição do processo de investigação e suas conclusões e descobertas. Neste ano, aconteceu no Shopping RioMar Fortaleza entre os dias 4 e 6 de dezembro e envolveu 414 alunos apresentando 184 trabalhos.

O que se quer com esta ação é estimular a pesquisa e a ciência como princípio pedagógico a fim de que tenhamos cidadãos ques-
tionadores e capazes de sistematizar sua compreensão a respeito do que lhe desafia.

Como disse Paulo Freire: “o educador democrático não pode negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão”.


Artigo publicado no Jornal O Povo em 30 de dezembro de 2019.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

20 de novembro


*Por Alexsandro Santos


Num país no qual um parlamentar que integra o Congresso Nacional se sente autorizado a afirmar que "os negros" (como grupo racial) cometem mais crimes - e, por isso, são mais mortos pela polícia - do que os demais grupos raciais, simplesmente não há espaço para a dúvida da relevância da data de hoje.

A ideia - pretensamente universalista, pretensamente "desracializada" - de que datas como essa são inadequadas porque "somos todos iguais, somos todos humanos", para mim, só pode ser aceita por três categorias de sujeitos:

1. Aqueles que não compreenderam ainda que o racismo é um sistema ideológico e - portanto - deixam de enxergar seus efeitos na sua própria visão de mundo. Embora bem intencionados, seguem guiados por um conjunto de crenças e valores cuidadosamente disseminados e cultivados na sociedade racista brasileira. São brancos, são negros, são de todas as raças. Mas foram catequizados numa cartilha em que se aprende que basta não falar de racismo para ele desaparecer. Ouso chamá-los de desavisados por desconhecimento.

2. Aqueles que - no gozo dos privilégios do sistema social hierarquizado e racista - não suportam a ideia de que sua posição superior na sociedade contemporânea se explica, em grande parte, por um processo histórico mediante o qual todos os seres humanos foram obrigatoriamente racializados (mas cada um numa posição) e que uma parcela ganhou e/ou herdou benesses produzidas pelos mais de 300 anos de coisificação do corpo negro e de transformação de homens e mulheres africanos na mercadoria mais rentável do capitalismo. Vivem no chamado pacto narcísico da branquitude (ainda que, na maior parte das vezes, sua branquitude seja tão fajuta quanto a estátua da liberdade da Havan) .Ouso chamá-los de desavisados por hipocrisia (ou cinismo).

3. Aqueles que foram embriagados pelo autoritarismo e pelo protofacismo que, silenciosa e lentamente, se manteve atuante após a redemocratização brasileira e que, nos últimos anos, saiu às ruas sem nenhum tipo de borda ou limite. Vomitam, sem qualquer pudor, o racismo em palavras e em atitudes - as vezes mais implicitamente, outras mais explicitamente. Ouso chamá-los de genocidas por conivência.

Estou disposto a dialogar com os primeiros. Com algum esforço, com os segundos. Quanto aos últimos, repito o que disse Elza Soares: Meu amor, suma.



* Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Atualmente é Coordenador do Programa de Pós-Graduação da Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo e do curso de Pedagogia da Faculdade do Educador - FEDUC

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A educação está a serviço de um projeto de sociedade


O processo educativo, em qualquer contexto, nunca foi e não será isento. Sempre estaremos discutindo o projeto de sociedade que está na base da formação humana e dos princípios que devem permear a prática do ensino-aprendizagem.
O discurso autoritário baseado em uma suposta neutralidade da educação é uma ensurdecedora falácia.
O Brasil é um país diverso, cujas relações sociais foram forjadas em uma estrutura aristocrática e escravista. A origem do Estado Brasileiro está fincada, portanto, no autoritarismo e na ideia de cultura dominante e que se esforça em negar as manifestações do que não é espelho. Se o projeto de sociedade que se defende tem relação com este modelo, a escola não precisa contextualizar o que ensina e, nesta premissa, a “escola não é para todo mundo”. 
Ensinar os “conteúdos já legitimados” e promover a memorização de conceitos-chaves das ciências, somente, responderia à expectativa deste modelo societário, pois não se questiona o que se deve aprender.
Por outro lado, se o projeto de sociedade se pauta na inclusão, que cultiva a crença de transformação das realidades socioeconomicamente vulneráveis por meio da educação e na ampliação irrestrita das oportunidades de desenvolvimento de cada pessoa, a escola deve ampliar seu referencial curricular e ir além dos processos de aprendizagem sobre o nosso código linguístico e das ciências.
A escola pensada para todos não pode ser isenta. O conceito de multicultura deve estar presente nas práticas educativas. A história de vida dos estudantes precisa ser externada e reconhecida para que se criem vínculos entre a identidade pessoal e comunitária com a visão de futuro a respeito da própria existência. 
Nesta perspectiva, proporcionar ao estudante a percepção da realidade em que vive na dinâmica do que se estuda promove algo que a escola “clássica” tem dificuldade em ensinar: a conjugação do verbo esperançar, que se traduz na capacidade de se juntar a outros para construir de outro modo.
A ação educativa está associada a um projeto de sociedade. Não se pode pensar escola sem refletir sobre os próximos passos de amadurecimento da nossa nação: como queremos nos ver no futuro?

Artigo publicado no Jornal O Povo em 6 de novembro de 2019

terça-feira, 4 de junho de 2019

Por uma visão sistêmica da educação infantil à pós-graduação

*Foto do site https://educacaointegral.org.br/conceito/

É absolutamente incoerente considerar a educação básica e a superior como antagônicas. O binômio educação e desenvolvimento econômico-social se estabelece a partir de uma visão sistêmica e pela efetivação de um projeto de nação alicerçado no desenvolvimento pleno das pessoas.

Se pensarmos o sistema educacional de forma separada, olhando para a educação básica em detrimento do ensino superior, surgem questões óbvias: quem cuidará da formação dos educadores? Onde se fará pesquisas para subsidiar estratégias que objetivem a qualificação de projetos pedagógicos?

À medida que o Brasil conseguiu ser eficiente no atendimento escolar, alcançando a quase universalização da matrícula das crianças com 6 anos de idade, surgiu a necessidade de termos professores bem formados em nível superior, capazes de dar as oportunidades educacionais necessárias para a conclusão do ensino médio e inserção dos jovens em cursos universitários para consolidar a espiral do desenvolvimento humano.

Como então desenvolver a educação básica sem ter universidades de excelência?

Não sei responder senão reafirmando a relação imbricada desses níveis de ensino.

É claro que podemos levantar muitos aspectos a serem melhorados na relação educação básica e o ensino superior. Mas é inegável a contribuição das instituições de ensino superior em dois aspectos: na formação dos futuros professores da educação básica e na oferta das variadas possibilidades para se dar continuidade aos estudos, permitindo aos estudantes o aperfeiçoamento profissional para atuar nas diversas áreas laborais.

Para muito além disso, a educação é capaz de promover a transformação da face econômica e social de uma nação quando o cuidado com o desenvolvimento integral do ser humano está também associado à inovação tecnológica, à pesquisas científicas de alto impacto para a vida das pessoas, para o crescimento econômico, e que consigam explicar questões caras à existência humana e as relações complexas que se estabelecem na sociedade.

Assim, o Brasil, capitaneado pelo Ministério da Educação, deve conduzir um debate nacional para o fortalecimento deste sistema. É disso que verdadeiramente precisamos.

domingo, 5 de maio de 2019

Onde está a política de Estado?


Eloisa Vidal* 


A política educacional de uma nação é questão de Estado e não de governo. Pelo menos é assim em países desenvolvidos, que entra governo e sai governo pertencentes a partidos de matizes ideológicas distintas, e a educação das novas gerações continua seguindo diretrizes elaboradas em décadas anteriores. Esses pactos sociais e políticos têm permitido que os países avancem na melhoria da qualidade educacional, como a Finlândia, que fez isso nos anos de 1970 e os resultados começaram a aparecer no Pisa em 2000, e mais recentemente, Portugal, cujas iniciativas de reformas educacionais começam nos anos 1990 e que vem mostrando uma evolução expressiva em avaliações internacionais.

O Brasil chega ao século XXI com problemas educacionais que outros países resolveram no século XIX, como a alfabetização de adultos, o acesso universal e uma política de financiamento claramente definida para a educação pública. Só a partir da Constituição de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, é que o País começa a organizar seu sistema educacional. Estamos falando de algo novo, com cerca de 30 anos, portanto, sujeito a muitos ajustes e desafios de implementação. Ainda não conseguimos universalizar o ensino médio, por exemplo, e o acesso ao ensino superior está abaixo dos percentuais dos países desenvolvidos e de vários países da América Latina.

Mas não podemos negar que avançamos muito nesses trinta anos. Universalizamos o acesso de 4 a 14 anos, o que significa educação pré-escolar e ensino fundamental; melhoramos as taxas de aprovação; corrigimos parte da distorção idade-série. Essas ações coordenadas, sistêmicas e contínuas só foram possíveis graças as condições de financiamento que perpassaram os governos no período 1996 - 2016. Isso tudo está ameaçado diante do impasse sobre o financiamento da educação brasileira, seja pelo destino incerto do Fundeb, seja pelas possibilidades levantadas sobre a desvinculação dos percentuais assegurados na Constituição de 1998 - 18% da União e 25% dos estados e municípios.

Falar em desenvolvimento e não priorizar a política educacional é um caminho que se dirige para o abismo. Educação para poucos, além de excluir a maioria, funciona como uma bomba relógio de conflitos sociais que mais dia, menos dia, explode e pode representar retrocessos assustadores.


*Eloisa Vidal é professora da Universidade Estadual do Ceará - Uece
Artigo publicado no Jornal O Povo, 04/05/2019